EmMeio#16.0
Para o Sol não nascer quadrado
O vídeo experimental "Para o sol não nascer quadrado" aborda a tensão entre o anseio pela liberdade e a realidade claustrofóbica da condição humana. Esses contrastes são trabalhados de maneira distinta tanto visual quanto sonoramente, oferecendo uma experiência conflitante ao espectador. A partir das imagens dos cobogós, um dos ícones da arquitetura moderna brasileira que simboliza um período de esperança e progresso no país, conhecido como "projeto construtivo brasileiro", o filme os redefine de maneira a evocar a ideia de confinamento. Na narrativa, a casa se transforma em uma prisão, onde as imagens das sombras dos cobogós, projetadas na parede, são vislumbradas através do olho mágico da porta. Estes são os únicos raios solares visíveis, criando uma enorme grade com milhares de "pequenos sóis" em um imenso corredor. Já a banda sonora é trabalhada de maneira totalmente oposta às imagens. Construída por superposições e camadas de sons do cotidiano, ela procura refletir a ideia de liberdade e autonomia. Essa abordagem cria um atrito intencional com a parte visual do vídeo, estimulando a imaginação do espectador para identificar a origem dos ruídos e interpretá-los com a ideia de movimento, prazer e pulsão de vida. Dessa forma, procura-se acentuar este contraste entre o que é audível e o que é visto. O filme, conceitualmente, busca de maneira irônica reexaminar a famosa afirmação do crítico Mário Pedrosa em 1959, de que o Brasil estava "condenado ao moderno". Enquanto Pedrosa expressava uma visão utópica do futuro do país durante sua fala no Congresso Internacional de Críticos de Arte em Brasília, antes mesmo da inauguração da cidade, o filme, produzido mais de sessenta anos depois, questiona essa herança da modernidade e sua influência na contemporaneidade distópica. O resultado é uma reflexão sobre uma cidade tombada que, por vezes, se encontra aprisionada em sua própria história.